>não-ser

na vida como folha,
pedra, vento
um cachorro sarnento
um não-humano
um não-ser qualquer que passa
ninguém o vê
não está
e é tudo

ele segue os outros
tenta adivinhar o odor do desejo
a cor da lágrima
o som do riso
tenta imitar os seres
andar feito eles
rasga a face como sorriso
tenta respirar
mas o que é o ar?
é preciso

C. Félix
24.03.11

>espanto

transpus a linha
do insano
perdi o que há em mim
de humano
volto a trilhar o rumo
do absurdo
tento me segurar
em palavras vãs
em vão te procuro
cada dia mais longe
cada dia o mundo todo
ou sou eu que encolho
ou que morro sufocada

no espanto

C. Félix

>bye

acaricio teu rosto, amor
como foto antiga
acaricio teu rosto, amor
como despedida

C. Félix
Set.08

>Crime e castigo

Matei a possibilidade da felicidade. Saturei teus olhos até ficar transparente. Anuviei o dia seguinte e o agora. Mostrei a ferida mais funda, o medo mais terrível, a incerteza mais aguda, a taquicardia descontrolada, a tremura. Toda feiúra, ou quase.

Cometi o maior erro: guardei em tuas mãos meus dias.

>noite

silêncio é grande
maior que a noite
do outro lado da lua
silêncio das coisas
que não pudemos
madrugada é grande
menor que a solidão
que se estende
no sempre da porta
realidade é grande
menor que o silêncio
esta noite

C.Félix
06.11.2010

>poema

que pena
a vida não cabe
no poema

mais pena ainda
quando o poema
não cabe na vida

C. Félix
04.11.2010

>quimera

noite chega tarde
nestas paragens
ventos trazem vozes
ecos de nós um dia
já não ouço mais
ondas noturnas do mar
já não ouço mais
faz escuro aqui na cidade
cheia das luzes artificiais
um tempo que já foi
um tempo que não foi
esta noite quis
nada mais

C. Félix